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Uruguai também procura o melhor cordeiro

Autor: Gianni Bianchi - 07/12/2012

Para concorrer no mercado em mudança, o país busca saídas nos cruzamentos e na divisão de etapas da produção de cordeiro

 

 

O Uruguai atende poucos mercados ovinos, pois, ao contrário da bovinocultura, em que se vendem poucos a muitos, na ovinocultura o oposto acontece. O Uruguai, de certa forma, é dependente do “Brasil dependente” quando se refere à carne de cordeiro. Mais de 40% das exportações vão para o Brasil, além de possuirmos tarifas nulas para a União Europeia para exportação de até 5.800 toneladas. Mediante a exportação de congelados desossados, foram distribuídos cortes de volta para cobrir as taxas com a Europa, dada a carne de maior valor que está sendo acessada, enquanto o resto da carcaça, que inclui paleta, costela e carré é destinado ao Brasil.

 

 

 

Até no selo, o Uruguai mostra sua paixão pelos ovinos. Foto: Sheep-breeding (colnect.com)

 

 

No Brasil, que tem um status sanitário inferior ao do Uruguai, temos acesso limitado à venda da carne ovina com osso que é - ao contrário de carne bovina - de maior valor que a desossada. O terceiro maior mercado (mas longe dos outros dois, que juntos respondem por mais de 70% do total das exportações) é o Oriente Médio. Os grandes mercados não só definem em que momento o produto é mais valorizado, mas também o tamanho dos cortes. É claro que os países exportadores de carne ovina, principalmente Nova Zelândia e Austrália, também estão sujeitos às exigências dos mercados internacionais, mas ao contrário do Uruguai, têm acesso a mercados com maior poder aquisitivo e/ou mais livres de tarifas.

 

Cobertura de gordura x carcaça ideal

 

Os resultados obtidos em pesquisas no que se refere à relação entre as medidas de espessura de gordura (ponto GR) e peso de carcaça mostram que os cordeiros mais pesados atingem os valores mais elevados de cobertura de gordura e, consequentemente, teriam mais chances de serem classificados em uma categoria com desconto nos preços (caso se pague por isso, como na Oceania).

Em cordeiros da raça Corriedale, o ponto GR aumenta em 1,07 milímetro por quilo de carne, enquanto os cordeiros mestiços alcançam 0,92 milímetro, o que sugere a superioridade dos cruzados em termos de menor teor de gordura, que é exibida à medida que o peso da carcaça também aumenta. Nos animais cruzados, há raças que atingem pesos de carcaça muito elevados, mas são acompanhados por excesso de gordura. Animais nessa situação são menos eficientes (o custo para cada kg a mais, que é acompanhado de gordura, eleva-se) e afetam o mercado que paga incentivos pela carne magra.

 

As raças e seu acabamento

 

Mesmo havendo diferenças entre animais da mesma raça, em média os cordeiros filhos de carneiros das raças Poll Dorset, Suffolk e Milchschaf (embora sendo esta uma raça leiteira é muito útil para gerar mães F1) produzem uma carcaça pesada e magra, enquanto os filhos de Hampshire ou carneiros Southdown produzem uma carcaça que deposita mais gordura e atinge a terminação com peso muito menor e mais adequado para o tipo de cordeiro que o Uruguai produz. Já as raças Ile-de-France e Texel produzem animais que suportam uma gama bastante ampla de peso e sempre com um bom acabamento.

No caso um cruzamento terminal, a mãe do cordeiro, seja das raças Corriedale, Ideal, Merilin, Romney ou mesmo Merino, não é determinante, se o alimento for suficiente em quantidade e qualidade e for escolhido o carneiro adequado.

Não é por acaso que quase 70% dos cordeiros que a Austrália está vendendo são produtos de cruzamentos e a raça dominante paterna é Poll Dorset ou Suffolk Branco. Já na Nova Zelândia, há uma alta proporção de Romney Marsh ou raças relacionadas (com Romney) nos plantéis. Em ambos os casos, os criatórios respondem ao tipo de carcaça e, obviamente, ao tamanho de cortes, que em sua maioria é exigida pelos compradores de carne: EUA e Europa.

 

Com a Oceania não há concorrência !

 

O Uruguai, apesar de ter um mercado atual, claramente limitado a 18 kg de carcaça, não produz seus cordeiros usando raças que melhor se adaptam a esse produto. Suas crias são produtos de um sistema onde a lã é dominante e, como tal, apresenta uma produção sazonal e muito heterogênea que não consegue competir internacionalmente com o cordeiro da Oceania. Isso não somos nós que dizemos; é a indústria que aponta e também não faz nada para mudar essa situação.

Há outro elemento que também diferencia o Uruguai significativamente do que acontece na Oceania: a indústria da carne dá sinais claros sobre que tipo de produtos seus mercados necessitam. Basta considerar os sistemas de tipificação de um ou outro país e os sistemas de comercialização que algumas centrais já estão implementando na Nova Zelândia, em que não só as carcaças são avaliadas por peso e GR (em comparação com o sistema de tipificação subjetivo e inoperante no Uruguai para discriminar as carcaças por conformação e grau de gordura). Também estão dando prêmios por quantidade de carne em diferentes regiões da carcaça através de raios-X, ou tomografia computadorizada.

 

Cruzamento industrial é a saída

 

O cordeiro cruzado, por kg de carcaça, não só é menos gorduroso, mas deixa mais kg de carne em cortes de alto valor. Em um cenário em que pesam o mesmo em termos de kg de carcaça (ficcional, porque em um mesmo período que se engordam e terminam 80% cordeiros mestiços, apenas 25-30% de cordeiros lanados ou de dupla aptidão o fazem), o cruzamento é a alternativa de melhor qualidade.

A carne de cordeiro cruzado é mais macia e tem maior cobertura de gordura intramuscular (o que torna a carne mais suculenta) porque ele cresce mais rapidamente e sem interrupção, sendo constantemente gerado um novo tecido conectivo (que é um dos determinantes na dureza da carne).

 

Planejamento e divisão de tarefas

          

Para atender os mercados que o Uruguai abastece atualmente, ainda temos uma margem significativa para a melhoria, que só será alcançada com genética apropriada (melhoramento genético levado a sério dentro das raças utilizadas) e alimentação adequada.

Nós produzimos principalmente um cordeiro que é de um ano (ou mais) no campo a fim de obter a lã. Certamente, a falta de sinais da indústria conspira para mudar drasticamente a forma de produzir.

Os criadores de grandes propriedades (onde está a maioria das ovelhas) não são a favor de um ciclo ineficiente, mas acreditam que muitos produtores podem se especializar na parte de criação, melhorando os índices reprodutivos, que são, em média, muito ruins. Devem também descartar cordeiros para que outros criadores que tenham comida (sabem fazer comida) e estão familiarizados com toda a logística de engorda eficiente (pastejo restrito, grãos, etc.), cuidem de concluir o cordeiro.

Hoje, a “cadeia que não é cadeia” falha em suas pontas: a criação e a indústria. Para onde vamos?

 

Para onde estamos indo?

 

Há outra diferença importante entre os países oceânicos e Uruguai. Enquanto na terra dos cangurus existem programas que coordenam todas as questões relativas à geração, difusão e adoção de conhecimentos relacionados às ovelhas, com um papel claro, no Uruguai em geral e, em particular, no setor de ovinocultura, há quase uma exclusão.

Mesmo sem o apoio de muitas fontes de pesquisa, foi criado o chamado “Plano Estratégico Nacional de Ovinos”, que pretende, a partir de 2015, abater anualmente 1,5 milhões de cordeiros, produzir 48.000 toneladas por ano de lã bruta e reduzir a lã acima de 28 micra a 40% do total.

Hoje, o Uruguai possui 800.000 cordeiros (quase metade do que é esperado) produzindo 32 mil toneladas de lã suja (66% do esperado) e a categoria de lã acima de 28 micra mal se moveu.

Parafraseando o cantor tacuaremboense, Numa Moraes: “Não faz falta um fogo grande quando não se tem o que churrasquear”.

 

 

Gianni Bianchi é Engenheiro Agrônomo da Universidade da República – Uruguai.






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